quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Cosmicidade.




Menina indecisa
quanto há de espaço
entre minha boca e teu medo?

Antes vivo que feliz solitário
Vem aqui pra eu te mostrar
meu atalho pro Sol

Pra quê desperdiçar olhos a relógios atrasados?

Quero galgar pedras cósmicas
pois gravito na órbita da tua singularidade
Que há de tolo na dádiva da vontade?

Há fissuras no coração congelado
dos que ousaram tentar

Moça, nossos peitos são frios por indução
Subverto o Juízo com fogo
E te queimo em mim.

domingo, 3 de maio de 2015

Paradigma.


De tanto fugirmos da manada
criamos uma pra nós
De novo sentido e direção
mas mesma obstinação
em sobreviver e vagar

Sejamos dignos de andar em círculos
desde que tenham sido tracejados
por mãos que não sejam as deles

Toda novidade é linda e bem-vinda.
Que venha e floresça
não se abstenha e amadureça
até que envelheça e apodreça.

E o círculo que antes era luz para a manada perdida
Se torne cinzas deixadas pra trás
por outros como nós

E os contornos no solo para o trajeto escolhido
Darão logo nova direção e sentido
para todo aquele que foge
de sustentar nas costas o peso
da nossa própria humanidade.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Terra da Minha Cabeça.



Eu me lembro
de quando era criança
e desenhava espécies de dinossauros
que só existiram nos meus cadernos
Se misturavam a dragões,
aventureiros do deserto
e patos falantes
Todos habitantes
de Terra da Minha Cabeça
em seu Hábitat inatural
Hoje ainda os vejo
passeando no quintal aqui de casa
E o Senhor Pato, desde sempre educado
quando me dá "bom dia"
sempre me fala que uma vez aberta
Minha Cabeça vira vernáculo de sonhos
Tentáculo de um tempo bom
em que um pato não precisava me provar nada.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Diagnóstico.


Cara-de-pau pra evitar pau na bunda
Nada contra quem goste
mas a minha pede isenção do castigo
Vim ao mundo
sem saber se estava virada pra lua
Cada um que tome conta da tua !

Rogo o direito a ser guarda-costas
ante as palmadas de vara verde
Que a mamãe Burocracia me dá
Não aprendo na porrada, desista
O que eles querem é meu cu na pista !

Cara-de-pau vem a frente
pra que não me peguem por trás
desprevenido
E façam o que fazem a essa gente
em perigo
Nos hospitais só há pomada e palmada
pro mesmo diagnóstico: 
nasceu fodido.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Exortação.


Não deixai que a libertação plena vire tua eterna prisão.
Não deixai que a constante elucidação das coisas te prive de uma nova visão.
Não deixai que a luz que ilumina a escuridão de teus caminhos te cegue.
Não deixai que a afirmação contínua das singelezas da vida te negue.
Não deixai que o amor se suicide em carinhos.
Não deixai que a flor esteja indefesa arrancando-lhe os espinhos.
Não deixai que a verdade de tão elevada vista o manto da mentira.
Não deixai que a cura em excesso mais sofrimento em ti se infira.

Não deixai que a fuga cotidiana se torne a cotidiana fuga.
Não deixai que a roda que rege o mundo te deixe entregue a loucura.
Não deixai que de normal se adjetive esta falsa estrutura.

Não deixai que a satisfação da carne se arme contra a própria.
Não deixai que a alma com sabedoria adormeça em agonia opróbria.
Não deixai que as dualidades se divorciem da unidade que as eleva.
Não deixai que as disciplinas te mantenham imerso na frieza das regras.
Não deixai que a maldade necessária ao viver mate a tua essência.
Não deixai que o adulto que hoje és distancie teus pés do que um dia foi inocência.
Não deixai que o artifício do ofício se torne teu vício e também teu amparo.
Não deixai que um sorriso comum se perca em algum momento mais raro.
E que as mais belas poesias se percam em verborragia.
Não deixai que o excesso te fira e só interfira em tua evolução.

A Vida e o Universo atentam aos dispersos que por estes versos aprendam a lição.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Tártaro dos pássaros engaiolados.

Inevitável é não dar as costas ao prometido
Sua sedução e suas promessas de uma vida melhor
longe do peso da cobrança de um compromisso firmado
em relações defasadas
Inevitável é dar ouvidos a todo o nosso trato
E assinar o contrato sem visualizar o conteúdo
Só a tua forma me bastava.
Imagens sensoriais, na pele e nos lábios,
alegorias do poema que fugiu da prisão das linhas da folha de caderno
E solto, caiu no chão sem ter onde se segurar,
lançou-se além do limite pensando poder voar.
Será essa a vida?
Amarra sofrida, Poesia em grades ?
De que me adianta o pôr-do-sol,
se minha boca sedenta não pode provar do sabor doce
e ao mesmo tempo amargo do crepúsculo das tardes ?
Tais promessas de fugas de mochila nas costas e coração no mundo,
com a visão no agora, e o toque da sua mão na minha,
o teu cheiro no meu cheiro, o meu beijo no teu beijo,
o teu sexo no meu sexo, teus complexos diante aos meus complexos
Tais promessas de uma vida longe de toda a minha mesquinhez
a minha insegurança em amar a minha condição de pássaro de asa quebrada
que tenta ser predador
Jogue fora por mim, na lixeira dos teus anseios egóicos
Pois pássaro engaiolado sou
Cego de asa quebrada
E tu fostes meu alpiste.
E de ti alimentei-me com o tesão da vida,
com o fulgor dos predadores estraçalhando suas presas
E você queria que eu te comesse,
e a cada bicada no teu alpiste eu me sentia menos preso e menos presa.
E mais predador, e mais digno, e mais iluminado, mais felizardo,
mais liberto dessa gaiola que me separa do universo
e mais corajoso pra voar o mais alto que puder,
para provar do mesmo alpiste em outros confins
desta divina aventura que é ESTAR VIVO!
E tal como o filho de Dédalo, queimei minhas asas de cera
(que nem ao menos são legítimas!)
ao almejar o mais alto do Céu.
E despenco ao solo, despatriado, longe da tua boca que almeja bocas mais sofridas,
que a teu ver transparecem a sensualidade das dores do viver
E caio só em meio ao nada, cego de asa quebrada
Com tua voz dizendo do seu amor em meu ouvido.
Lembranças são o que me restam, torturas do Tártaro dos pássaros engaiolados
Que os alimentam com alpiste no crepúsculo de suas almas.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Carne nova.

O mundo é seu inimigo.
Declarado ou não.
Todos querem tua cabeça em uma bandeja. Vivo ou morto.
Ou um mero morto-vivo, sem ideais, visão ou noção de objetivo.
Todos são adversários.
Teus amigos olham por ti mas também correm pra chegar primeiro.
O que vale não é a intenção.
Um moedor de carne humana fatia os que ficam para trás, te apoiam, mas confie em ti apenas !
Quem faz do companheirismo morada da alma, jaz na terra cega.
Você é o louco contra o mundo.
Firme teus pés na lama primeiramente, antes de firmar teus pés no que apontam como fato.
Teu instinto que guie o teu ato, não o bom-senso que lança todo dia carne nova ao buraco.
Que a loucura seja teus pés, a vontade tuas mãos, e o discernimento teus olhos que encaram de frente o inimigo.
Você e ele.
Vivo ou morto. Se assim for preciso.